Vender bastante, ter dinheiro na conta e pagar todas as despesas do mês pode dar a impressão de que a empresa está indo bem. Mas nenhuma dessas situações, isoladamente, confirma que o negócio realmente dá lucro.
Para entender o resultado da operação, o empreendedor precisa relacionar tudo o que vendeu com os custos, impostos e despesas necessários para manter a empresa funcionando. É justamente essa a função da DRE gerencial.
Com uma estrutura relativamente simples, ela ajuda a responder perguntas importantes: os preços estão cobrindo os custos? As despesas estão crescendo mais do que as vendas? Quais produtos sustentam a operação? Quanto realmente sobra para a empresa?
O que é uma DRE gerencial?
DRE significa Demonstração do Resultado do Exercício. Na contabilidade, é uma demonstração que organiza receitas, custos e despesas para mostrar se a empresa obteve lucro ou prejuízo em determinado período.
A estrutura contábil oficial deve ser elaborada de acordo com as normas vigentes e com o apoio do profissional de contabilidade.
A DRE gerencial utiliza a mesma lógica, mas é adaptada para acompanhar o negócio internamente. Ela pode ser preparada todos os meses, com categorias mais detalhadas e comparações que ajudem o empreendedor a tomar decisões.
Ela não substitui a contabilidade oficial. É uma ferramenta complementar de gestão.
Qual é a diferença entre DRE e fluxo de caixa?
Embora as duas ferramentas analisem as finanças da empresa, elas respondem a perguntas diferentes.
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Ferramenta |
O que mostra |
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Fluxo de caixa |
Quando o dinheiro entrou ou saiu da conta |
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DRE gerencial |
Se as vendas geraram lucro ou prejuízo no período |
Imagine uma venda de R$ 10 mil parcelada em cinco vezes. No fluxo de caixa, o dinheiro aparece conforme as parcelas são recebidas. Na DRE elaborada pelo regime de competência, a receita é reconhecida no período em que a venda aconteceu.
Por isso, uma empresa pode apresentar lucro na DRE e, ao mesmo tempo, enfrentar falta de dinheiro para pagar as contas. Isso pode acontecer quando vende muito a prazo, mantém estoque elevado ou precisa pagar fornecedores antes de receber dos clientes.
O contrário também é possível. Um empréstimo aumenta o saldo da conta, mas não representa receita de vendas nem lucro operacional.
Acompanhar o fluxo de caixa continua sendo essencial para prever pagamentos, recebimentos e necessidades de capital de giro. A DRE acrescenta outra camada: mostra se a operação é economicamente sustentável.
Como montar uma DRE gerencial simplificada
O formato pode variar conforme o setor e o nível de detalhamento desejado. Para começar, o pequeno negócio pode trabalhar com a seguinte estrutura:
1. Receita bruta
Registre o total vendido no período, antes de descontos, devoluções e impostos. Considere as vendas realizadas, e não apenas os valores que já caíram na conta.
2. Deduções sobre as vendas
Subtraia valores que reduzem a receita, como:
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Impostos incidentes sobre as vendas;
-
Devoluções e cancelamentos;
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Descontos concedidos;
-
Abatimentos comerciais.
O resultado será a receita líquida.
3. Custos dos produtos ou serviços vendidos
Inclua os gastos diretamente necessários para entregar aquilo que foi vendido.
Em um comércio, isso pode incluir o custo de compra das mercadorias. Em uma indústria, matérias-primas e outros custos de produção. Em uma empresa de serviços, materiais, profissionais terceirizados ou mão de obra diretamente aplicada ao serviço.
Depois dessa subtração, chega-se ao resultado bruto.
4. Despesas operacionais
Registre os gastos necessários para manter a empresa funcionando, mesmo que não estejam diretamente ligados à produção de cada item.
Alguns exemplos são:
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Aluguel;
-
Salários administrativos;
-
Pró-labore;
-
Contador;
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Sistemas e assinaturas;
-
Marketing;
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Telefone e internet;
-
Despesas de escritório.
Também podem ser destacadas as despesas que variam conforme as vendas, como comissões, taxas de cartão, custos de plataformas e determinados fretes.
Separar bem essas categorias ajuda a entender o que está consumindo a margem do negócio.
5. Resultado financeiro
Acrescente receitas financeiras e desconte despesas como juros, tarifas e custos de antecipação de recebíveis.
O resultado final mostrará se houve lucro ou prejuízo no período.
Exemplo de DRE gerencial
Considere uma pequena empresa que apresentou os seguintes números no mês:
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DRE gerencial mensal |
Valor |
|
Receita bruta de vendas |
R$ 50.000 |
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Deduções e impostos |
- R$ 4.000 |
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Receita líquida |
R$ 46.000 |
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Custos dos produtos ou serviços vendidos |
- R$ 18.000 |
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Resultado bruto |
R$ 28.000 |
|
Despesas operacionais |
- R$ 19.500 |
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Resultado operacional |
R$ 8.500 |
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Despesas financeiras líquidas |
- R$ 2.000 |
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Lucro líquido gerencial |
R$ 6.500 |
Nesse exemplo, a empresa terminou o mês com lucro gerencial de R$ 6.500.
Quando o lucro é comparado com a receita líquida, a margem líquida aproximada é de 14,1%. Isso significa que, a cada R$ 100 de receita líquida, cerca de R$ 14 permaneceram no negócio depois dos custos e despesas considerados.
O exemplo é apenas ilustrativo. A classificação correta de cada valor depende da atividade da empresa e deve ser alinhada com o contador.
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Como saber o que a DRE está dizendo
Encontrar um número positivo no final não encerra a análise. A principal utilidade da DRE está em mostrar onde o resultado está sendo formado ou perdido.
As vendas aumentaram, mas o lucro caiu
Pode haver crescimento dos custos, aumento de descontos, taxas maiores, mudança no mix de produtos ou preços desatualizados.
Faturar mais não significa necessariamente ganhar mais.
O resultado bruto é bom, mas quase nada sobra no final
Nesse caso, o problema pode estar nas despesas administrativas, comerciais ou financeiras.
A empresa pode ter uma operação rentável, mas uma estrutura muito cara ou um nível de endividamento que consome parte relevante do resultado.
Alguns produtos vendem muito, mas contribuem pouco
Ao separar receitas e custos por produto, serviço, loja ou canal de venda, a DRE gerencial ajuda a identificar quais atividades realmente geram resultado.
Um item com grande volume de vendas pode ter margem baixa devido a descontos, comissões, fretes, desperdícios ou custos elevados.
A empresa tem lucro, mas falta dinheiro
É o sinal de que também é necessário analisar o fluxo de caixa, os prazos de pagamento e recebimento, o estoque e o capital de giro.
A DRE mostra o resultado econômico. O fluxo de caixa mostra a disponibilidade financeira.
Indicadores que podem acompanhar a DRE
A análise pode começar com três indicadores simples:
Margem bruta: mostra quanto sobra da receita líquida depois dos custos diretamente ligados ao que foi vendido.
Margem operacional: indica o resultado da atividade principal depois das despesas operacionais.
Margem líquida: mostra a porcentagem da receita que permaneceu como lucro após os custos, despesas e resultado financeiro.
Mais importante do que buscar uma margem considerada “ideal” para todos os negócios é comparar os números da própria empresa ao longo do tempo, com o planejamento e, quando possível, com referências do mesmo setor.
Erros que podem distorcer o resultado
Uma DRE só será útil se os dados utilizados forem confiáveis. Entre os erros mais frequentes estão misturar despesas pessoais com empresariais, esquecer retiradas dos sócios, considerar empréstimos como receita, registrar apenas movimentações bancárias e deixar de incluir custos menos visíveis.
Também é importante manter critérios consistentes. Mudar a classificação de uma despesa todos os meses dificulta a comparação e pode criar uma falsa impressão de melhora ou piora.
Ter uma conta exclusiva para a empresa facilita a separação das movimentações e a organização das informações financeiras. A Conta PJ Santander oferece recursos para acompanhar a gestão financeira e o fluxo de caixa do negócio em um só lugar. Mesmo assim, os dados bancários precisam ser complementados por informações de vendas, estoque, impostos, custos e contabilidade.
Com que frequência a DRE deve ser analisada?
Para fins gerenciais, o acompanhamento mensal costuma ser o mais útil para pequenos negócios.
A cada fechamento, compare:
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O resultado atual com os meses anteriores;
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O realizado com o orçamento;
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A variação das receitas, custos e despesas;
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Os produtos ou serviços com melhor e pior desempenho;
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A margem da empresa ao longo do tempo.
Negócios muito sazonais também podem comparar o mês com o mesmo período do ano anterior. Isso evita interpretar como problema uma oscilação que faz parte do comportamento normal das vendas.
A DRE gerencial serve para MEI?
O MEI não é obrigado a contratar contador ou manter contabilidade formal, mas deve registrar mensalmente o total de suas receitas no Relatório Mensal de Receitas Brutas.
Ainda assim, uma DRE gerencial simplificada pode ser muito útil. O faturamento sozinho não mostra quanto o microempreendedor gastou para prestar o serviço, comprar mercadorias, pagar taxas ou manter a atividade.
Ao acompanhar esses valores, o MEI consegue analisar se o negócio remunera seu trabalho, sustenta suas despesas e gera recursos para continuar crescendo.
Transforme os números em decisões
A DRE gerencial não serve apenas para descobrir se houve lucro ou prejuízo. Ela ajuda a localizar as causas do resultado.
Com essa visão, a empresa pode revisar preços, negociar fornecedores, reduzir despesas, ajustar o mix de produtos, controlar descontos e planejar investimentos com mais segurança.
Para fortalecer esse controle, o Programa Avançar oferece gratuitamente o curso de Fluxo de Caixa e o curso de Educação Financeira, que abordam planejamento, organização e ferramentas para uma gestão financeira mais sustentável.
No fim, a pergunta não deve ser apenas “quanto a empresa vendeu?”, mas “quanto dessas vendas realmente se transformou em resultado?”. A DRE gerencial organiza os números para que essa resposta deixe de ser uma impressão e passe a orientar as decisões do negócio.